sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O Empregado




Eu odeio esse emprego.

Odeio ter que mentir para as pessoas falando que estou vendo o aumento de salário delas quando na verdade só quero entrar na internet e ver um pornô no expediente. Eu não me gabo com isso, ao contrário, eu fico triste pra caralho por isso.

Na hora do almoço  eu vejo os olhares atravessados, os murmúrios, os punhos fechados e rígidos. Tudo isso é direcionado para mim, não tem como negar. E eu realmente me sinto um cusão por ser assim.
A promoção que eu aceitei.

O cargo.
Eu tinha outra visão.

Agora me sento em um restaurante melhor do que o do ano passado. O VR aumentou e me proporcionou essa regalia, mas não converso com ninguém, sou cercado de odio pelos empregados e que já foram colegas de trabalho.

Chego em casa tarde, saiu cedo, não tenho tempo para minha esposa, nem para passear, só  quero dormir, ando estressado e abatido.

Eu odeio esse emprego.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

conversa em ponto de ônibus



- Oi

Ele a olha com desejo quase animal - quanto tempo hein?

- você sumiu - ela não nota o olhar dele, mas devolve um de não acreditar no azar que deu de encontra-lo. Ele não percebe.

O homenzinho cerca de seus cinquentasessenta anos se perde nos argumentos para justificar seus sumiços.

- tava trabalhando muito. Eu vivo indo para o interior sabe, Marília, Atibaia. 

- eu gosto muito do interior, pretendo me mudar daqui a uns doistrês anos.

- Ó, ó. Isso aí é bom. Não quer me levar junto? - pergunta ele com cinismo.

O sol não da trégua, o ônibus não passa, a mulher sem jeito de dar um fora no chato, talvez por já ter vivido algo, responde sutilmente.

- Na verdade, vão me levar. 

A piada não surte o efeito desejado, o cara é mais direto 

- você está mais linda do que antes, já casou?

- estou enrolada.

É o estopim para o desapontamento. Mas a cachaça previamente tomada já subiu a cabeça e de rosto vermelho pelo álcool pelo sol já entrega o que o bafo revelava.

- Ah. Hum. Enrolada...

Ele não consegue achar alguma frase de efeito.Uma sinapse escapa da mente turva.

- você pode desenrolar dele que a gente casa da noite pro dia - diz ele como tentativa. 

A mulher, de vestido, no sol, esperando o ônibus, ri da ousadia do homem. Um pouco da sensação de sentir-se desejada toma a mente dela, aliás já passou dos 40 e já aguentou duas gravidezes . 

Está bem conservada, como observa ele.

- tem tanto lugar bonito, o que falta é o dinheiro pra conhecer tudo. - diz ela na inocência de encerrar o assunto.

- eu te levo pra ó. Santos, Bahia, Ilhéus e ... Porto de Galinhas.

O ônibus não passa, o sol também não.

Ela disse que vai casar com o outro daqui a trêsmeses.

Ele diz que precisa levar o filho adolescente no dentista.

- se cuida - ela diz

Ele levanta o mão com o corpo já de costa.

A mulher tem a testa, o buço, os seios suados.  O ônibus vem lá no fim da rua.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

pelada


Das peladas que aconteceram na minha infância, uma foi emblemática.

Betinho era um palerma, não sabia chutar, correr ou ficar no gol. Era o dono da bola.

Um dia de sol nervoso depois da escola, todos foram para o terreno que havia perto da minha casa e servia de deposito de lixo, pois também servia de campo de futebol.

Antes da partida começar, Betinho foi logo falando

- eu que escolho o time

A bola rolava, ninguém tocava para Betinho. Esperneava e fazia cara azeda. Ameaçou pegar a bola, xingou a mãe de Neto, que xingou de volta e ameaçou dar-lhe uns cascudos.

Depois  disso o jogo rolou por um tempo, até Betinho começou a jogar com violência. Chutou o joelho de um, rasgou a camisa de outro, deu um soco em Neto na disputa  de bola.

Até que na hora do gol, pegou a bola na mão e disse que ia embora.

O pessoal, cego de raiva de Betinho, derrubou ele. Começaram chutes e socos.

A mãe  chamou pro almoço, todos foram.

Betinho ficou desmaiado no terreno.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

no meu tempo




- Essa país nunca vai melhorar! - Falava o senhor de barba grisalha e cabelo ralo.

- No meu tempo tinha respeito, tinha educação. Hoje jovem não quer ouvir o mais velho, só quer festa, só quer droga, mulher fica na rua até tarde, anda de roupa curta. Depois reclama!

Continuava de forma eufórica o seu discurso, corava um pouco para o rosa salmão as maçãs do rosto. Tomava folego e prosseguia:

- Não tinha tanto ladrão na rua, nem na política. A gente podia andar por aí. Não era assaltado, morto. Policial era respeitado. Isso é tudo culpa do prefeito, deixa esses arruaceiros ficarem quebrando bancos.

Sozinho, ficava na sua casa todos os dias. 
Aposentado, não tinha amigos vivos. 

De frente para TV, apontava o dedo e dizia

- esse cara tem razão! Esses gays são uma depravação, na minha época não tinha isso.


domingo, 10 de setembro de 2017

princesa



Todo dia, após  a mãe  sair de casa, ela pegava o vestido.
Gostava de se olhar no espelho vestindo aquele traje que parecia levar a uma terra encantada.

Girava dançando, os pés puxando o vestido que arrastava no chão. Nem notava. As pontas ficando sujas, carimbadas com os dedos curtos da menina.

Rodava

Sorria

Em sua valsa tudo acontecia como ela queria. Em seu estado de epifania, se imaginava princesa, da qual podia passar o dia sem pensar em limpar a casa, fazer almoço para o pai, buscar o irmão mais novo na escola, ir para a escola, fazer lição de casa, lavar a louça do jantar, arrumar a sala e a cozinha, colocar irmão para dormir.

Ali ela seria princesa de um reino mágico, e como princesa, sua mãe não poderia lhe bater com um cinto, chinelo, com vassoura ou com a mão por ter passado o dia todo brincando.

domingo, 3 de setembro de 2017

A dona do cão



O ser sem raça definida não parava de rosnar para mim. Uma merdinha daquela e eu não podia nem dar um chute na casa da boazuda que estava tentando impressionar. Ainda acho sorte na minha situação física de paralisia, ser agraciado com uma mulher tão bonita interessada em mim.
O que mata é esse cão sarnento.

Odeio essa praga quadrupede.

Começou a me cheirar. Era o que faltava.
Vivem com esses olhos arregalados, implorando misericórdia e amor.
Patéticos.

- Você gosta de animais? – Pergunta a mulher do outro cômodo.

- Adoro animais – respondo cinicamente.

Eu penso em dar um chega pra lá no vira lata, mas meu pé não responde ao comando.
Que droga de vida!

Ainda lembro da noite do acidente que me deixou nesse estado débil. Tudo por culpa de um cachorro miserável.
Ainda dizem que a culpa foi minha, que eu estava acima de 100km/H em uma zona urbana.
Quer saber?! A merda com esses moralistas. Cadê as carrocinhas para tirar esses animais da rua?

Eu bati a cabeça na guia da rua, mas pelo menos o cão voou longe. Foi o que disseram!

- Então meu benzinho? Está pronta?
- Você não vai acreditar, o totó fez xixi encima da cama, e agora? – Responde ela com voz de desapontamento.

Eu odeio essa praga quadrupede.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

moscas





Os granulos de açúcar haviam ficados sobre a mesa, representando que o café estava encerrado.

Mesmo assim existia vida na mesa, por meio das moscas que passavam em seus voo rasantes em busca daquela mina de cristais.
Se aproxima uma, depois aterrissa a outra. 


Se aproximam dos cacos de glicose como os astronautas nos rochedos lunares. 


Pronunciam um zum incompreensível.
De repente uma onda branca se aproxima e faz as moscas voarem.


O funcionário do café termina de limpar a mesa. Uma outra pessoa se acomoda ali.
As moscas voaram para outro lugar.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A Rabugenta



A senhora da minha rua era rabugenta, isso não podíamos negar.

Ela vivia varrendo a calçada e xingando sem parar, maldizendo alguém e fofocando sozinha. Quando jogávamos bola na rua, ela ameaçava rasga-la caso batesse na mureta da sua casa ou caísse no seu quintal. A gente ria, tirava sarro dela.
Anos depois fui visitar minha mãe e perguntei da tal senhora, ela já devia ter morrido com certeza.
Mas a verdade é que ela se encontrava no asilo do bairro.
Decidi ir visita-la. Cheguei na recepção e perguntei pelo nome da mulher, eles me indicaram o quarto dela. Me deparei com a mesma cara que conheci na infância, ela perguntou quem era e o que eu queria. Disse que não enxergava muito bem.
Contei para ela quem era e que queria saber o motivo daquela raiva toda que ela tinha alguns anos atrás.
Ela então contou que naquela época foi quando seu marido havia morrido, seu único companheiro, o amor da sua vida e que o que mais sentia falta era gritar e discutir com ele, como morava sozinha, discutia com o mundo.
Naquele momento entendi aquela senhora, lembrei do semblante dela quando eu era criança. De como tinha lagrimas prestes a cair, o rosto desolado.

Saí do asilo sabendo que um dia podia ser eu o rabugento. 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O expectador



A atmosfera é pesada. Cada átomo se contrai e não ousa sair do lugar.

Ela olha-o com fúria. O silêncio grita de medo. Todos gritam dentro de si.

Ele tenta encontra um canto onde seus olhos não confrontem o olhar dela, mas não consegue. Ela é todo o quarto, ela é o julgamento. O criado mudo é ela, a cama em que está deitado é ela.

Ele movimenta os lábios. As palavras se calam, nenhum um som ousa soar.

O gato vem assistir ao espetáculo

Por fim, ela dispara

- Você sabe que estou gravida

Ele finaliza

- Fui demitido




Fim.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Engarrafamento



No engarrafamento
Tudo para
                                                             anda um pouco

Para
                                              anda mais 

Para
                   
                                      anda
                 para
       
                                Ampara
               
Paranda
                                                                               Andapara

Até que a gente se depara
Que está tudo parado.

E aí para
pra pensar

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Rotina



Todo dia era a mesma coisa.
Acordava, levantava, escovava, aguá no rosto, veste roupa, tranca.
Desacordadamente pegava o ônibus B124-3, passava seu bilhete, girava a catraca. 
As 10 horas da manhã percebia por fim onde estava
Chorava.